sábado, 12 de junho de 2010

tendinite

'E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia apenas alguém que diz sim.'Eu só não sei se consigo.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

cântico do calvario

É engraçado as coisas que nossa memória guarda. Qual é o critério de seleção? Quem é o juiz do juízo? De onde assopra o vento do calafrio? Acho curioso. Sou tomado, diariamente, por diversas memórias que insistem em me atormentar. E não venha me falar que o que guardo é o desejo. Lacanianos, punheteiros e religiosos, todos iguais.

São poucas coisas tão dolorosas quanto uma ferida invisível. Aonde se escondem as memórias? Como elas fogem sorrateiramente deste lugar e saltam-nos os olhos?

Qual movimento, qual chacoalhada de cabeça é capaz de escoá-las pelos ouvidos?

Eu não estou certo. Mas, ora, nunca se duvida do que ninguém tem certeza.

Lembro-me de uma tarde na casa de meu falecido avô. Jogávamos futebol na área de serviço. Três primos, todos horríveis. Mas eu tinha um trunfo. Ainda naquela tarde faria o que fazia melhor: merda. Acertei uma trivela em um jarro de plantas que uma tia de consideração cuidava com tanto esmero. Passei a tarde fazendo cena para falsificar minha inocência. Inútil. Lembro-me de jogar intencionalmente outro jarro no chão e gritar: “agora fui eu, pode bater”.

Lembro de uma coleção gigantesca de Comandos em Ação aleijados.

Lembro de pensar nos crossovers muito antes dos quadrinhos e do cinema.

Lembro de tentar esconder a barriga com a camisa dobrada.

Lembro de olhar no espelho e pensar que mesmo magro nada mudou.

Lembro da forma como meu coração disparou no primeiro beijo

e como nem se manifestou na primeira transa.

Lembro de gostar dos meus amigos

e de não ter a mesma certeza sobre mim.

Lembro de matar aula pra fumar.

Lembro de odiar literatura.

Lembro de amar literatura

e, talvez, por isso, de amar sem ser amado.

Lembro de um churrasco.

Lembro de deitar no seu colo.

Lembro de uma casa pequena.

Lembro de uma casa grande

e que nada disso fazia diferença pra mim.

Lembro de um menino que só falava o próprio nome: Saulo!

Lembro de muitos anos que pareceram apenas um.

Lembro das tatuagens.

Lembro das cartas escritas à mão.

Lembro das mentiras.

Lembro de cada uma de suas sardas

e de querer morrer por elas.

Lembro de não morrer.

Lembro de querer viver.

Lembro de você que não se lembra de mim

e, por isso, praticar certo altruísmo distorcido.

Lembro de não querer ficar feliz, porque quem é feliz esquece e, às vezes, a única coisa que nos resta é a amargura.

Lembro de deixar o cabelo crescer, exatamente porquê todo mundo falava que ficava feio.

Lembro de um barzinho muito tosco.

Lembro das trancinhas.

Lembro da gata.

Lembro do sapo verde.

Lembro da flor vermelha.

Lembro do coração batendo como no primeiro beijo.

Lembro de um desenho feio.

Lembro de um desenho bonito.

Lembro do Sora,do Donald e do Goofy.

Lembro de quase matar todo mundo

e, mesmo sobrevivendo, da parte de nós que morreu.

Lembro de negar sua morte.

Lembro de aceitar sua more.

Lembro de sentir feliz por saber que, seja porque motivo for, eu não lembro, ao acaso, sozinho.

Lembro de querer ficar bonito e cortar o cabelo.

Lembro de dois lindos olhos verdes.

Lembro de me sentir culpado por desejá-los.

Lembro de querer sumir.

Lembro de querer aparecer.

Lembro de fingir maturidade.

Lembro de concluir que existe mais coisa entre a vida e a morte

e, entretanto, querer esquecer,

pois essa outra coisa que eu decidi chamar de memória me consome.

O coçabunda (parte 1)

Desatento aquela manhã, o coçabunda deu-se com um muro familiar. De altura mal calculada, não era baixo nem alto. Não cobria nada, mas exigia esforço para subir. Servia de banco, mas não dava conforto. Ainda sim, resolveu sentar.

Como qualquer um, o coçabunda anda com alguns problemas. Achou que parado ali trabalharia algumas questões. Tomou um pequeno impulso, maior que os saltos da sua adolescência e subiu. Suas perninhas tremularam inseguras, seu calcanhar sentiu as pedras, seu tronco envergou desconfortavelmente e seus olhos observaram, sem calma, o ponto de ônibus à frente.

Sentado de meia bunda, passou a mão na terra batida que deveria servir de canteiro, mas nunca foi, e tentou refletir sobre a frase pichada: a principal função da raiz é se enterrar.

- Existe um vitiligo intelectual impulsionando a humanidade. A arte é um inutensílio e as pessoas já não conhecem limites. Porque há um limite para qualquer moral, como há um limite para o amor, disse em voz alta.

Suspirou fundo, mais fundo que os suspiros fundos e confabulou: “acreditar no bem quando se tem 18 anos é fácil, quero ver continuar acreditando depois dos 30, é assim também com a poesia”.

O coçabunda tinha pretensões poéticas, tinha alma de artista, e essa alma ele nem escolheu. Comentam que pouco antes de nascer, numa reunião particular com Deus, encontro cedido a poucas almas, o coçabunda pediu para nascer anão.

- Se existe uma razão para se fazer poesia é porque Aqueles poetas funcionam como glândulas da sociedade, se sua escrita não faz ninguém suar, então é melhor que faça análise, por que dai, pelo menos, você não incomoda ninguém, ironizou.

Se pensarmos conforme, acredito, o coçabunda, poeta mesmo é o porteiro aqui do prédio, que dorme o tempo todo.

Já faz algum tempo que ando acompanhando o coçabunda. Pequenino, tem dificuldades com as tarefas diárias. Eu o ajudo. Muitos acreditam que ele é uma espécie de guru, um Gandhi. Cheio de frases, nunca escreveu uma só poesia. Às vezes, seguro-o no alto para que pinte ou desenhe, mas minhas forças se esvaem rápido e seus desenhos também não são tão bons.

Interrompeu-me: “veja, acho que a arte tem alguma função, noutro dia, ao ser languidamente observado por uma senhora menos interessante que inconveniente, fiz um comentário sem graça sobre cinema para me livrar dela. É tudo, na verdade, um Tratado de Tordesilhas sexual”.

Fui pego de sobressalto. Engoli seco meus pensamentos. Que gênio!

- Pretendo dar-lhe minha visão. Difícil. Talvez você não compreenda, talvez nem se esforce, disse puxando-me pela lapela do casaco para ouvi-lo ao pé do ouvido.

E ainda com meia bunda no muro falou: “não é exatamente o que você está pensando”.

Mas como sabe o que estou pensando? É mesmo um iluminado esse coçabunda.

- Afinal, quem sou eu, o outro? Disse e sorriu.

Virei-me para seu lado, desgrudei os lábios, mas percebi que queria ficar a sós com seu sorriso.

Aterrorizei-me. Sou uma pessoa de moral ambígua, não mereço a companhia do coçabunda. Porque me deixa acompanhá-lo? Meu coração bateu forte. Procurei paz nos meus pensamentos. Vazio. Com pequenos movimentos de cabeça, olhei para os lados diversas vezes. Ele me observava com sofreguidão. Outro suspiro, esse menos fundo.

“Vamos para casa, sim?” Pediu-me.

- Você me trouxe para cá com incompreensível pressa, não quer ficar mais, comentei com os braços já esticados para ajudá-lo a descer.

- Não, não, não. Respondeu com seu costume de falar as coisas três vezes.

Segurei-o pela cintura na alça do casaco que, apesar do calor, sempre usava. Um visual Inspetor Clouseau que marcou toda a vida do coçabunda. Coloquei-o no chão. Caminhamos por alguns instantes, mãozinhas dadas.

Um tempo se passou e ainda andávamos para não sei onde. Ele fitou-me impaciente. Olhinhos de fogo esses do coçabunda, pensei tremendo. Acho que deixei evidenciar minhas inseguranças com espasmos nas pontas dos dedos.

- Sabe o que é curioso em você? Sempre tem essa cara de ameaçado, ofendido e desprotegido. Tem uma bochecha para cada e o que sobra, mostra nas rugas da testa.

Passei a mão pelo rosto, terminei colocando na boca. Pensei em comer uma unha. Não comi. O coçabunda é desses: faz você pensar que está pensando.

Vacilei. Tentei refletir, não houve tempo.

“Olha, olha, olha”. Gritou apontando.

- O que? Não vejo nada!

- Olhe de novo! De novo, de novo!

- Mas para onde quer que eu olhe, homem?

- Ali, ali, ali!

Acalmei-me por um segundo, segui seu dedinho enrugado. Achei.

- Aquela menina, o que há?

- Não vê nada?

- Não!

- Então não está olhando direito.

Mas que diabos. Como quer que eu olhe? Perguntei-me.

- Está olhando com os olhos, calado, pra onde meu dedo aponta?

...

- Estou.

- Agora, o que vê?

- Não sei. Respondi da maneira mais sincera que podia.

Não posso negar que vi uma menina bonitinha, com uma densa maquiagem escondida atrás de num par de óculos, olhos cor de qualquer coisa, andando passos que começavam ensaiados nos quadris.

Soltou minha mão. “Às vezes, você age como um idiota”, vociferou. As lições de vida do coçabunda nem sempre são agradáveis. É o diabo do diabo.

- Veja, em uma coisa eu lhe admiro: é preciso coragem para entender a verdade de sua mentira. Você tem que aprender a olhar e ver com as pontas dos dedos. Falou cuspindo.

Devagar, moveu novamente o bracinho num vagaroso e sofrido movimento. Apontou para mim. Click, piscou, reafirmando com os olhos sua opinião de que eu era um idiota.

- Só assim você impede o pior fracasso que é não viver. Disse com boca de revolver.

Engoli saliva. Ficamos quietos por um tempo, eu pensando, ele sei lá.

Interrompendo o silencio pediu-me algo para beber. Busquei rápido. Quando voltei, o coçabunda me disse: “uma vez conheci uma menina com coração de passarinho”. “E o que se fez dela?” Perguntei. Calado, fitou-me novamente, bebericano.

- Tudo é tão familiar, você não percebe? Perguntou.

Balancei a cabeça para responder que sim, o que, naturalmente, queria dizer não, porque relação entre o que ele fala e as coisas, confesso, me escapa.

- Você se esquiva de tudo, não compreende? Não vê que isso é tão inútil quanto o esforço revisionário de um artista sobre sua obra afim excluir-se dela?

As metáforas de arte do coçabunda me matam. Será que ele pensa que vida e arte são a mesma coisa?

- Heim, heim, heim? Gritou.

Não adiantava, embora eu imaginasse ter uma ou duas coisas pra dizer, eu não as lembrava.

Sem mais, nem menos, o coçabunda ficou visivelmente irritado, falava coisas quaisquer mexendo raivosamente no casaco, se importando pela primeira vez com calor. Era o meio da rua, às vezes penso que era o mesmo lugar, as pessoas pigarreavam para mandar-lhe calar a boca. Ele estava vermelho, dava saltinhos; rangia os dentes, batia palminhas.

Ajoelhei-me. Tentei acalmá-lo.

Segurou-me novamente pela lapela. Mas que mania, pensei. Desta vez, desencilhei sua mão com um balanço de punho sem esforço, um tanto metido, conquanto meus olhos o encarassem firmes e bondosos, afastando qualquer impressão violenta. Fora um movimento firme, seguro, sem excitação, como em um duelo de cavalheiros: touché.

Ainda que gentil, obriguei o coçabunda a errar dois ou três pacinhos para trás. Procurou equilíbrio com as mãos no ar e pareceu encontrar. Olhou-me assustado. Sentei-me no chão. Com os braços soltos e tremulantes, estiquei deselegantemente. Perdi a razão, pensei. Senti enjôo, calor subindo no pescoço, fiquei tonto. Acho que desmaiei.

Daí um pouco acordei. Em verdade, fiquei mesmo consciente o tempo todo. Estirado no chão pude escutar todas as pessoas se aproximando, pude senti-las me apalpando, umas tentando ajudar, outras tentando alcançar meus bolsos. Talvez por isso, não tenha me levantado assustado ou ansioso. Estava calmo, quase sereno. Apenas me afobei quando percebi que o coçabunda já não estava mais comigo. Calado, ainda no chão, pensei alguns instantes em morrer e o medo comeu-me a língua. Se bem que a morte é a única coisa que fala.