sexta-feira, 4 de junho de 2010

cântico do calvario

É engraçado as coisas que nossa memória guarda. Qual é o critério de seleção? Quem é o juiz do juízo? De onde assopra o vento do calafrio? Acho curioso. Sou tomado, diariamente, por diversas memórias que insistem em me atormentar. E não venha me falar que o que guardo é o desejo. Lacanianos, punheteiros e religiosos, todos iguais.

São poucas coisas tão dolorosas quanto uma ferida invisível. Aonde se escondem as memórias? Como elas fogem sorrateiramente deste lugar e saltam-nos os olhos?

Qual movimento, qual chacoalhada de cabeça é capaz de escoá-las pelos ouvidos?

Eu não estou certo. Mas, ora, nunca se duvida do que ninguém tem certeza.

Lembro-me de uma tarde na casa de meu falecido avô. Jogávamos futebol na área de serviço. Três primos, todos horríveis. Mas eu tinha um trunfo. Ainda naquela tarde faria o que fazia melhor: merda. Acertei uma trivela em um jarro de plantas que uma tia de consideração cuidava com tanto esmero. Passei a tarde fazendo cena para falsificar minha inocência. Inútil. Lembro-me de jogar intencionalmente outro jarro no chão e gritar: “agora fui eu, pode bater”.

Lembro de uma coleção gigantesca de Comandos em Ação aleijados.

Lembro de pensar nos crossovers muito antes dos quadrinhos e do cinema.

Lembro de tentar esconder a barriga com a camisa dobrada.

Lembro de olhar no espelho e pensar que mesmo magro nada mudou.

Lembro da forma como meu coração disparou no primeiro beijo

e como nem se manifestou na primeira transa.

Lembro de gostar dos meus amigos

e de não ter a mesma certeza sobre mim.

Lembro de matar aula pra fumar.

Lembro de odiar literatura.

Lembro de amar literatura

e, talvez, por isso, de amar sem ser amado.

Lembro de um churrasco.

Lembro de deitar no seu colo.

Lembro de uma casa pequena.

Lembro de uma casa grande

e que nada disso fazia diferença pra mim.

Lembro de um menino que só falava o próprio nome: Saulo!

Lembro de muitos anos que pareceram apenas um.

Lembro das tatuagens.

Lembro das cartas escritas à mão.

Lembro das mentiras.

Lembro de cada uma de suas sardas

e de querer morrer por elas.

Lembro de não morrer.

Lembro de querer viver.

Lembro de você que não se lembra de mim

e, por isso, praticar certo altruísmo distorcido.

Lembro de não querer ficar feliz, porque quem é feliz esquece e, às vezes, a única coisa que nos resta é a amargura.

Lembro de deixar o cabelo crescer, exatamente porquê todo mundo falava que ficava feio.

Lembro de um barzinho muito tosco.

Lembro das trancinhas.

Lembro da gata.

Lembro do sapo verde.

Lembro da flor vermelha.

Lembro do coração batendo como no primeiro beijo.

Lembro de um desenho feio.

Lembro de um desenho bonito.

Lembro do Sora,do Donald e do Goofy.

Lembro de quase matar todo mundo

e, mesmo sobrevivendo, da parte de nós que morreu.

Lembro de negar sua morte.

Lembro de aceitar sua more.

Lembro de sentir feliz por saber que, seja porque motivo for, eu não lembro, ao acaso, sozinho.

Lembro de querer ficar bonito e cortar o cabelo.

Lembro de dois lindos olhos verdes.

Lembro de me sentir culpado por desejá-los.

Lembro de querer sumir.

Lembro de querer aparecer.

Lembro de fingir maturidade.

Lembro de concluir que existe mais coisa entre a vida e a morte

e, entretanto, querer esquecer,

pois essa outra coisa que eu decidi chamar de memória me consome.

4 comentários:

  1. Lembro-me de muitas destas lembranças. Mesmo das que não lembro, compartilho o mesmo sentimento. Por que lembrar de tantas coisas? Existem momentos que gostaria de ter memória de peixe. Mas, infelizmente, para algumas lembranças, pareço ser um elefante. E por mais que tente esquecer, nada acontece, exceto deixar cada vez mais viva na memória cada momento. Algumas vezes lembro com tanta força, que até parece que eles vão voltar a acontecer. Na verdade, é desejo que voltem. Ou desejo de recomecem, de uma segunda chance, talvez, de não fazer tanta merda. Pois, infelizmente, muitos dos meus momentos foram marcados pela imaturidade de fingir tal maturidade. Tolinha... Mas são estas lembrança que nos tornaram quem somos hoje. Não sei se somo bons ou maus. Mas acredito que a estima que muitas pessoas têm por nós é uma dica que de no final tudo deu certo. Apesar de tudo, conseguimos ser pessoas boas, queridas, apesar de amar sem ser correspondidos. Mas, pelo menos,amamos. Pior seria se nunca tivéssemos amado...
    E por isso, meu primo querido, digo-lhe: você é um vencedor, um sobrevivente como todos nós. E amado, com certeza. Um amante eterno também.
    Grande beijo,
    Marcinha

    ResponderExcluir
  2. Outro dia escutei essa frase numa música: não sei se eu pudesse voltar varia algo diferente, mas é que as vezes me arrependo de tudo.

    ResponderExcluir
  3. Já tinha ouvido falar de "pensador", agora "lembrador"... isso me lembra aquela frase do Einstein "a imaginação é mais importante que o conhecimento". Entretanto, o Fellini disse que "a memória é muito mais vasta que a imaginação". Memória que consome é uma expressão resonante...

    ResponderExcluir