terça-feira, 1 de novembro de 2011

Bob e Eu



Eu gosto do impossível, do fantástico; daquilo que não está lá, mas se vê. Dou risada do ridículo, entrementes poucos sorrisos. Choro quando tenho vontade, mas nem sempre tenho motivos. Tenho um sorriso confiante que não demonstra minha insegurança ocasional, conquanto olhe de maneira insegura pouco antes das grandes decisões – é chame, eu sei -.  Sou imprevisível, mas sei o que quero. Não gosto de rotina, na verdade, odeio rotina. Aceito que nunca serei esportista, cientista, especialista, e tantos istas que dependem da rotina. No entanto, admito, nem sempre coloco em prática aquilo que julgo certo. Acordo todos os dias de manhã e faço mais ou menos as mesmas coisas. Pelo menos, são poucas as pessoas para quem me explico.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

convite à vida


Para você, é possível ser feliz? Uma vez, um diabo se aproximou em minha solidão e disse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes”. O que eu deveria fazer? Se concordasse, estaria em uma ainda mais solitária solidão e abriria as portas para este enigmático diabo. Pensei com cuidado, é justamente o que ele revela o problema. Afinal, as coisas que se repetiram, se repetem e se repetirão? Imagino que, a quem se aventura nessa experiência, abrem-se duas portas: o desespero ou a afirmação. Devo deixá-lo entrar? Apenas posso permitir que se aproxime e transformá-lo de diabo em deus, se já tivesse vivido essa verdade. Será que já? Àquele que se submete a este pensamento, submete-se, então, porque vive a vida de modo fugaz, pois tudo que passa, não deveria ser preciso reviver. Ainda sim é felicidade? É como ter uma epifania e, logo em seguida, esquecer o que estava pensando, uma vez que as coisas são iguais e, ao mesmo tempo, absolutamente diferentes. Estaria certo Tomas? Uma vez não conta, uma vez é nunca? Hoje, algo pode ser pesado e leve, pois meu coração é a Tchecoslováquia invadida pela Rússia, invadida pela neve. E quanto pesa um quilo de neve russa? Talvez, justamente por ser fugaz, a vida seja passiva de correção e, por isso, escolho a afirmação de outra vida possível: ser feliz para viver e não viver para ser feliz. Uma felicidade onde a morte perderá seus poderes mágicos e a memória será obrigada a lembrar, pois só assim entenderá que o mesmo é outro. Uma felicidade que não se importa com as fronteiras do mapa e do tempo, uma felicidade em que cada dia é o primeiro e cada noite a ultima. A única felicidade que vale a pena ser vivida, a do amor. Afirmo: a apalavra é a mesma, mas só com você faz sentido.



Nietzsche+Kundera+Galeano_quotes

sábado, 3 de setembro de 2011

o vento e homem



O vento assoprou furiosamente o deserto de areia, formando montanhas, trilhas e planaltos. Depois, O vento montou a miragem e tudo que há dentro dela: camelos, açudes e o coqueiro. O vento levantou tudo que há dentro do deserto, até que um dia não modelou mais. O vento ajuntou-se num homem e parou de assoprar. O homem pensou gentilmente o resto do mundo, imaginando céus, continentes e mares. Em seguida, O homem refletiu a palavra e tudo que há dentro dela: amores, deuses e o tempo. O homem foi tudo que há dentro o mundo, até que um dia não especulou mais. O homem assoprou-se a areia e pensou o deserto.

terça-feira, 5 de abril de 2011

“Sonhar não custa nada, ou quase nada”


(novamente um texto bem diferente dos que costumo postar, mas ainda nosso)


Com este samba enredo, a Escola de Samba carioca Mocidade Independente de Padre Miguel desfilou o carnaval de 92. Ainda que tenha sido vice-campeã, o samba é, provavelmente, um dos mais gostosos de cantarolar de todos os tempos. É curioso reparar no nome desse samba; ele nos chama atenção para o fato de que o sonho tem um preço. Não é muita coisa, mas está ali. E quanto custa? O que eu preciso ceder? Qual parte de mim fica perdida em cada cochilada?

O sonho é uma experiência que possui diferentes significados, conforme os saberes através dos quais os interpretamos. Religião, ciência e filosofia parecem não concordar com o que devemos entender. Por hora, sonhos podem ser processos químicos, premonições, deslocamentos e expansões da consciência, realizações de desejos... Sonhos tanto podem ser coisas, quanto as coisas podem ser sonhos. Mas, em todo caso, existe um preço.

Sonho é diferente de pesadelo e é por isso que é um sinônimo para felicidade – mas de uma felicidade onírica, impalpável, imaginária, impossível. Seria esse o preço? É tão bom, apenas porque é impossível, porque não pode ser tocado? Mas, ora, quem de fato já tocou a felicidade?

Talvez, o buraco seja muito mais embaixo... Tão lá em baixo, que é pertinho da porta dos sonhos. Muitas vezes, sonhamos que estamos voando, carregando pesos impossíveis e até sendo outras pessoas. Mais estranho ainda é que acordamos e, nos primeiros minutos entre a inconsciência e a vigília, nos permitimos recordar alguns momentos dos sonhos e acreditamos que nada daquilo fora absurdo. “Eu, de fato, voei.”

Existe uma proximidade entre o sonho e a realidade, estranha ao nosso cotidiano. Não estamos acostumados a pensar a vida de maneira tão fantástica. Mas eu faço um convite a você, leitor deste livro: nos momentos em que estiver com ele nas mãos, acredite que um sonho pode ser realidade, pelo simples fato de que a realidade pode ser um sonho. Convenhamos, é um preço ameno a se pagar.

Ainda que com algumas controvérsias, a ciência já consegue mapear, numa estranha qualidade, o movimento cerebral das pessoas quando dormem. Foi assim que sugeriram que os bebês sonham, ainda quando dentro das barrigas de suas mães. Mas com o que eles sonham? Existe algum preço pra eles? Se você não possui linguagem para sonhar, pode sonhar com tudo?

Mapear o sonho com um escaneador é o primeiro passo para se escolher com o que sonhar. Por enquanto, apenas a arte faz isso. Quando um autor escreve um livro, ele imagina uma história, imagina os personagens e os diálogos. Ele é, de certa forma, o deus daquele mundo; daquela obra. O autor escreve um livro com matéria semelhante à que usamos para escrever os sonhos: com sua imaginação e experiência. Mas então, por que não temos controle do sonho, como o autor de sua obra? Ou, em última instância: o autor tem controle sobre sua obra?

São tantas perguntas e tão poucas respostas... Mas talvez aí esteja exatamente a maravilha. Quando sonhamos, quando lemos um livro, ou mesmo quando imaginamos alguma coisa acordados, são diversas as maneiras de entendimento. Maneiras tão diferentes quanto são os homens nesta Terra.

No final, como diz o samba, o importante é deixar sua mente vagar, viajando nos braços do infinito... “Onde tudo é mais bonito, nesse mundo de ilusão; Transformar o sonho em realidade; É sonhar com a mocidade, é sonhar com pé no chão.”

segunda-feira, 28 de março de 2011

O menino afogado


(um texto um pouco diferente dos que costumo postar, mas, ainda sim, nosso)


Ah, se eu pudesse avisaria ao menino que se afogou que o amor são tantas coisas. Diria que a costa é imensa e que, por isso, ele está em tantos lugares. Que amor é, muitas vezes, quando não se sabe que está amando. É um cubo mágico que resolvido acaba. É o copo com água do oceano: meio cheio.

Ah, se eu pudesse seguraria seu braço, não o deixaria entrar no mar. Gritaria que há dignidade no sofrimento, que na vida há espaço para a dor. Que, talvez, quem não tenha sentado no litoral, nunca tenha amado. Que o amor é um conceito para ser tocado num cd de uma faixa só, apenas com barulho da água e que leva um segundo pra sempre, para depois ser ouvido em outro, ou no mesmo lugar.

Ah, seu eu pudesse caminharia ao seu lado, mostraria que o amor é uma brisa que provoca estranha saudade; vontade de ligar e não ligar. É achar lindo e não dizer. É conversar sobre tudo sem querer dizer nada. É estar no lugar certo na hora errada. O contrário do que gostaríamos de ler: é jogar.

Ah, se eu pudesse empurraria seu ventre contra a areia quente, como duas barrigas que coladas queimam amor. Seguraria com força, até que sua respiração ofegante pudesse ser ouvida, ardente e cadenciada, enquanto o suor escorre lentamente da testa para o pescoço, do pescoço para o ombro, do ombro para o braço, para finalmente se perder entre os dedos sujos de areia.

Ah, se eu pudesse me assentaria ao seu lado, apontaria para o horizonte e diria que há resposta na falta dela. Paciência, o “Amor começa tarde.”


sobre amor e o tempo, de Drummond

sexta-feira, 25 de março de 2011

bicho


Rompemos a porta da boate como o ferrão dos rock stars. Insetos da noite atrás de flores de neon que brilham na cadência da falha elétrica, escondendo e revelando nossas vergonhas miletianas. Inseguros, não sabemos se somos abelha ou vespa. Fingimos conhecer onde estamos, mas a verdade é que não sabemos de nada. Impacientes e angustiados, voamos em falsa sincronia. Nossas antenas já não servem, nossas asas são de mentira. Ninguém aqui é bicho, porque você não entende?

Desculpe-me, tomei mel de mais, estou um pouco bêbada, amor.
Como é que é?!
Disse que estou bêbada, tomei muito mel, me desculpe.
Não, a outra parte...
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domingo, 20 de março de 2011

silêncio

Pouco a pouco, cada um colocou seu tablete de sabão na boca. Entreolhamos-nos por um instante com certo medo. Estávamos todos em pé e em círculo. Primeiro, um ardume na garganta e pigarros, depois suor. Então, eu juro, fechei os olhos e pude sentir as palavras escorregando. Engoli! Engoli as palavras. Tentei gritar e nada. Olhei-os e sorriam de canto de boca. Foi assim: digerimos tudo para elucubrados e eloquentes esperamos calados. Fingimos paciência. Alimentamo-nos apenas de palavras e nem água bebemos.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A fome sem a vontade de comer

De fato, comeria todos os pedaços de tudo, os bons e os ruins. Engoliria num movimento sofrido de garganta, porém sem fazer cara feia. Não ia chorar, não ia reclamar, nem brincaria com a comida. Entenderia que existem dias de frutas, verduras, cereais e esperaria paciente pelo dia da carne. Faria dieta lua, do sangue, do sol. Perderia 12 quilos em uma semana. Seria um exemplo de tudo aquilo que devia repugnar, faria deste mundo aquele outro mais conhecido e tudo dentro de um prato de comida. Mas agora só existe o jejum.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Eles falam com tanta segurança. Falam de maneira elucubrada e elegante. E ainda que falem de alguma insegurança, o fazem seguros. Eles sabem essa linda linha sintática da desgraça. Eles sabem todas as palavras e quando esquecem, o fazem apenas por capricho. Mas eu não sei. Eu não sei onde elas estão. Eu queria tanto ser como eles, queria afetar tristeza, solidão, inteligência, queria construir um sorriso, uma frase, uma ereção. Eu só não queria lamber a mesma ferida invisível.