segunda-feira, 28 de março de 2011

O menino afogado


(um texto um pouco diferente dos que costumo postar, mas, ainda sim, nosso)


Ah, se eu pudesse avisaria ao menino que se afogou que o amor são tantas coisas. Diria que a costa é imensa e que, por isso, ele está em tantos lugares. Que amor é, muitas vezes, quando não se sabe que está amando. É um cubo mágico que resolvido acaba. É o copo com água do oceano: meio cheio.

Ah, se eu pudesse seguraria seu braço, não o deixaria entrar no mar. Gritaria que há dignidade no sofrimento, que na vida há espaço para a dor. Que, talvez, quem não tenha sentado no litoral, nunca tenha amado. Que o amor é um conceito para ser tocado num cd de uma faixa só, apenas com barulho da água e que leva um segundo pra sempre, para depois ser ouvido em outro, ou no mesmo lugar.

Ah, seu eu pudesse caminharia ao seu lado, mostraria que o amor é uma brisa que provoca estranha saudade; vontade de ligar e não ligar. É achar lindo e não dizer. É conversar sobre tudo sem querer dizer nada. É estar no lugar certo na hora errada. O contrário do que gostaríamos de ler: é jogar.

Ah, se eu pudesse empurraria seu ventre contra a areia quente, como duas barrigas que coladas queimam amor. Seguraria com força, até que sua respiração ofegante pudesse ser ouvida, ardente e cadenciada, enquanto o suor escorre lentamente da testa para o pescoço, do pescoço para o ombro, do ombro para o braço, para finalmente se perder entre os dedos sujos de areia.

Ah, se eu pudesse me assentaria ao seu lado, apontaria para o horizonte e diria que há resposta na falta dela. Paciência, o “Amor começa tarde.”


sobre amor e o tempo, de Drummond

5 comentários:

  1. Há muito tempo eu não acredito no amor. Eu virei aquela jovem cínica que de tanto quebrar e sangrar, se fechou... mas que deseja, ao mesmo tempo (e não confessa) que procura por um cavaleiro que tenha coragem de romper a casca e ver que ali tem fragilidade e doçura. Eu não acredito no amor. Mas acredito nisso: " Ah, se eu pudesse seguraria seu braço, não o deixaria entrar no mar. Gritaria que há dignidade no sofrimento, que na vida há espaço para a dor. Que, talvez, quem não tenha sentado no litoral, nunca tenha amado. Que o amor é um conceito para ser tocado num cd de uma faixa só, apenas com barulho da água e que leva um segundo pra sempre, para depois ser ouvido em outro, ou no mesmo lugar"
    Lindo!Lindo!Lindo!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Puta merda,
    que coisa linda.

    é, é sempre sobre o amor e o tempo. a nossa vida é bem isso. e eu acho bem bonito, no final das contas.

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  4. Obrigada, meninas. Vindo de vcs três(como diria o Ronivon) "significa" muito pra mim

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