terça-feira, 5 de abril de 2011

“Sonhar não custa nada, ou quase nada”


(novamente um texto bem diferente dos que costumo postar, mas ainda nosso)


Com este samba enredo, a Escola de Samba carioca Mocidade Independente de Padre Miguel desfilou o carnaval de 92. Ainda que tenha sido vice-campeã, o samba é, provavelmente, um dos mais gostosos de cantarolar de todos os tempos. É curioso reparar no nome desse samba; ele nos chama atenção para o fato de que o sonho tem um preço. Não é muita coisa, mas está ali. E quanto custa? O que eu preciso ceder? Qual parte de mim fica perdida em cada cochilada?

O sonho é uma experiência que possui diferentes significados, conforme os saberes através dos quais os interpretamos. Religião, ciência e filosofia parecem não concordar com o que devemos entender. Por hora, sonhos podem ser processos químicos, premonições, deslocamentos e expansões da consciência, realizações de desejos... Sonhos tanto podem ser coisas, quanto as coisas podem ser sonhos. Mas, em todo caso, existe um preço.

Sonho é diferente de pesadelo e é por isso que é um sinônimo para felicidade – mas de uma felicidade onírica, impalpável, imaginária, impossível. Seria esse o preço? É tão bom, apenas porque é impossível, porque não pode ser tocado? Mas, ora, quem de fato já tocou a felicidade?

Talvez, o buraco seja muito mais embaixo... Tão lá em baixo, que é pertinho da porta dos sonhos. Muitas vezes, sonhamos que estamos voando, carregando pesos impossíveis e até sendo outras pessoas. Mais estranho ainda é que acordamos e, nos primeiros minutos entre a inconsciência e a vigília, nos permitimos recordar alguns momentos dos sonhos e acreditamos que nada daquilo fora absurdo. “Eu, de fato, voei.”

Existe uma proximidade entre o sonho e a realidade, estranha ao nosso cotidiano. Não estamos acostumados a pensar a vida de maneira tão fantástica. Mas eu faço um convite a você, leitor deste livro: nos momentos em que estiver com ele nas mãos, acredite que um sonho pode ser realidade, pelo simples fato de que a realidade pode ser um sonho. Convenhamos, é um preço ameno a se pagar.

Ainda que com algumas controvérsias, a ciência já consegue mapear, numa estranha qualidade, o movimento cerebral das pessoas quando dormem. Foi assim que sugeriram que os bebês sonham, ainda quando dentro das barrigas de suas mães. Mas com o que eles sonham? Existe algum preço pra eles? Se você não possui linguagem para sonhar, pode sonhar com tudo?

Mapear o sonho com um escaneador é o primeiro passo para se escolher com o que sonhar. Por enquanto, apenas a arte faz isso. Quando um autor escreve um livro, ele imagina uma história, imagina os personagens e os diálogos. Ele é, de certa forma, o deus daquele mundo; daquela obra. O autor escreve um livro com matéria semelhante à que usamos para escrever os sonhos: com sua imaginação e experiência. Mas então, por que não temos controle do sonho, como o autor de sua obra? Ou, em última instância: o autor tem controle sobre sua obra?

São tantas perguntas e tão poucas respostas... Mas talvez aí esteja exatamente a maravilha. Quando sonhamos, quando lemos um livro, ou mesmo quando imaginamos alguma coisa acordados, são diversas as maneiras de entendimento. Maneiras tão diferentes quanto são os homens nesta Terra.

No final, como diz o samba, o importante é deixar sua mente vagar, viajando nos braços do infinito... “Onde tudo é mais bonito, nesse mundo de ilusão; Transformar o sonho em realidade; É sonhar com a mocidade, é sonhar com pé no chão.”